Moonlitsky
Era a voz novamente dizendo-lhe o que deveria ser feito. Com o sacrifício ela estaria purifica e perdoada de seus pecados, podendo então, alcançar a glória Divina. Seu filho dormia tranquilamente e nunca suspeitaria do que a mãe faria a ele. Mas era preciso ou eles arcariam com as conseqüências. Vagarosamente percorreu os cômodos da casa, pegou uma vela negra na cozinha e ajoelhou-se perante a imagem Dele. Como ela o odiava.
_ Senhor rogo-lhe que reconsidere teu pedido, ele é meu filho...
Um forte estronde estremeceu o interior da casa, a névoa densa e sombria que a perseguia rodeou-a e Ele sussurrou aos pés de seu ouvido.
_Não peças bobagens minha querida, chegou a hora de ele me encontrar.
_ Mas ele é meu filho.
_ Nosso filho.
_ Oh, por favor, eu não conseguiria.
_ Você sabe o que vai acontecer se não o fizer, além do mais eu permiti que ele vivesse muito tempo ao seu lado, dessa vez não serei tão piedoso.
_ Por favor...
_ Faça, estou ordenando. Quer ver minha fúria novamente?
_ Não, de novo não.
Os olhos dela estavam arregalados, as imagens da aldeia pegando fogo e das pessoas morrendo surgiram em sua memória. Um pesadelo que ela não suportaria vivenciar novamente. E dessa vez Ele não iria deixá-la viva.
Elvenwood era uma pequena aldeia camponesa situada na parte montanhosa da Escócia. Por séculos sofreu com terríveis catástrofes devidas a maldição rogada a ela. Mas, esse destino cruel estava prestes a mudar. Uma aldeã engravidara por desconhecer a paternidade da criança os sábios anciãos e conhecedores de magia negra reuniram-se em conselho para discutir sobre o destino do pequeno bastardo. Trocariam a vida do bebê pelo fim da maldição. O pacto foi selado e uma hora após o nascimento da criança o ritual deveria começar.
Nove meses depois o recém nascido foi arrancado bruscamente dos braços de sua mãe e levado ao local de sacrifício. Apesar de ser início de inverno e dos campos estarem cobertos por uma fina camada de neve, a lua cheia brilhava intensamente no céu. Era o presságio de que os planetas estavam se alinhando e que o bebê deveria ter seu sangue derramado.
Não havia uma alma viva nas ruas, os aldeãos trancaram-se em casa com medo do que poderia vir a acontecer se algo saísse errado. Os mais sábios esconderam-se nas montanhas e não voltariam até a época de lua cheia terminar.
O menino de olhos verdes com semblante angelical dormia tranquilamente enquanto uma adaga era afiada, seria ela quem iria tirar sua vida. Seu sangue livraria os habitantes da aldeia da miséria, uma vez que sem a maldição o solo não seria infértil nem as águas insípidas. Era uma vida bastarda por 200. Um preço baixo pela glória.
O carrasco aprontara a adaga santificada, o sacramento havia iniciado.
_ Senhor, receba o sangue dessa criança, e perdoa-nos e aos nossos antepassados – disse em voz alta.
A adaga foi levantada à imagem Dele, os anciãos faziam suas preces. Contudo, o brilho produzido pelas velas revelou um semblante maligno. Era a mãe da criança. Ela estava parada atrás da pilastra lateral do templo, sentia-se fraca, mas não deixaria ninguém tocar em seu filho.
_ Supersticiosos trogloditas, VOCÊS NÃO TOCARÃO NO MEU FILHO! – berrou enfurecida.
Meio atordoada, porém decidida arrancou das mãos de seu irmão a adaga e encravou-a no peito do mesmo. Os anciãos olharam desesperados, o ritual fora corrompido.
_ É SANGUE O QUE VOCÊS QUEREM? – arrancou a adaga que escorria sangue – É SANGUE O QUE TERÃO!
O céu escureceu, ventava muito. Era a fúria Dele. Ele não deixaria por isso mesmo. Ela já se afastara o bastante da aldeia quando ouviu um forte estrondo. Seu bebê chorava, pois sentia muito frio. Aconchegou-o em seu colo. Estava feito, eles que sofressem com as conseqüências.
Do solo da aldeia brotava fogo, raios atingiam as árvores, o chão tremia. Um denso nevoeiro rodeava a aldeia criando com a fumaça uma barreira visual. Nada entrava nada saía daquele inferno. A fúria satânica cessou após três dias e três noites, quando todos já haviam morrido. Elvenwood fora esquecida e hoje não passa de uma aldeia fantasma, consumida pelo fogo.
Agora todo o sofrimento e todos os pesadelos que ela teve estavam prestes a se repetir, mas dessa vez ela entregaria a alma do filho que tanto amava. Ele era o pai do menino, e seria decisão Dele levá-lo para si. Foi até o quarto do rapaz, fitou-o encantada seu semblante doce e infantil. Vinte anos – pensou. Vinte anos de medo, de dor...
_ Filho? – chacoalhou-o.
_ Que foi mãe?
_ Eu vou ao parque, vem comigo?
_ É necessário?
_ Se não fosse eu não pediria.
Ele se vestiu e acompanhou a mãe até o parque. Era um local agradável que ele adorava visitar no verão. Sabia que havia algo de errado com a mãe, pois ela estava nervosa e evasiva, também suava frio. Eles se sentaram em um banco à beira do Lago Azul – as águas do mesmo se encontravam em cristalização, devia marcar termômetro abaixo de zero. Ela olhou seu filho, amava-o tanto, mas havia chegado a hora de dizer adeus.
_ Desculpe querido, eu amo tanto você – disse em meio às lágrimas. Ele num gesto de carinho abraçou a mãe beijou-lhe delicadamente a face envelhecida.
_ Também a amo, mamãe.
Num impulso sufocado e extremamente doloroso ela o acertou como uma barra de ferro que havia escondido sob o tecido do casaco. Desesperou-se ao vê-lo sangrar, mas continuou a acertá-lo. Ele por sua vez estava estático, recebia os golpes desferidos pela mãe sem alguma reação. Não podia acreditar no que estava acontecendo. Tentou então se levantar e afastar-se, mas escorregou e caiu sobre as águas congeladas do lago. Logo seu corpo resfriou-se, o sangue misturou-se a água. Sentia que milhares de facas afiadas cortavam sua carne, doía muito, mas era bem pior saber quem estava fazendo aquilo. Ergueu-se para respirar, mas duas mãos femininas agarraram seu pescoço levando-o novamente ao fundo do lago. Eternizou o semblante da mãe enquanto prometeu a si mesmo vingança. Seu corpo inerte afundou lentamente, os olhos fixos no infinito. Ele descansaria mesmo que não fosse em paz ao berço singelo das águas do Lago Azul.
O céu enluarado de início de inverno, a fina camada de neve sobre as copas das árvores e o frio mórbido e congelante trazido pela brisa, tudo igualmente repetido. E a névoa, sempre indolente e vingativa, o espectro natural Dele. Como ela o odiava. Então Ele sussurrou aos seus ouvidos:
_ Bom trabalho.
_ Satisfeito? – perguntou injuriada.
_ Ainda não, agora chegou a sua vez.
______________________________________________________________________________________________
______________________________________________________________________________________________
E que conste em minha lápide: “Aqui jaz Gerard Arthur Way, uma alma decadente que nunca soube o que é a felicidade” – o meu silêncio.
______________________________________________________________________________________________
______________________________________________________________________________________________
O Lago Azul
Estava no parque observando as águas do Lago Azul – assim era chamado o lago que atravessava o parque – cristalizar-se. Era um fenômeno extraordinário que só acontecia em alguns dias no inverno, e eu sempre o presenciava. Mas algo naquele momento me fez olhar para o lado onde o lago curvava-se majestoso e corria singelo de encontro a uma ponte. Subitamente o reflexo de um rosto masculino desenhou-se nas águas, o que me assustou, pois não havia ninguém ali. Ao me aproximar da beira do Lago o rosto rapidamente se desfez. Recuei. Pensei ter tido uma impressão, mas estranhamente estava imóvel. Não podia falar e mal conseguia ouvir.
Devo ter permanecido em estado de inércia por aproximadamente uma hora, pois quando meus sentidos finalmente voltaram havia escurecido. Algumas luzes acenderam-se iluminando vagamente o local onde estava. Além de mim e das árvores nada mais se encontrava no parque. Andei ainda um pouco tonta até um banco e me sentei. Foi quando ouvi aquele sussurro. Era como se alguém estivesse me chamando.
Uma brisa balançou os galhos das árvores eles chocaram-se produzindo sons estranhos, um fio assobio estava sendo provocado pelo encontro pressurizado entre ar e uma latinha de refrigerante. Latas de lixo rangiam freneticamente. Meu medo acrescentava a sensação de estar sento vigiada. Achei que estivesse enlouquecendo, mas um hálito gelado arrepiou-me. Havia alguém do meu lado. Logo em seguida surgiu a voz.
_Me Ajude.
Lágrimas escorreram quentes por meu rosto, eu não pude controlá-las. Queria desesperadamente gritar, mas nada além de um baixo gemido era produzido por minhas cordas vocais; correr e só parar quando estivesse em casa, só que meus pés não se moviam.
Havia escurecido de todo, uma luz oscilava em apagar e continuar acesa. Alguns flocos de neve caíram sobre as copas das árvores, branqueando-as. Era aterrorizante estar naquele lugar sozinha, de dia: mágico e acolhedor, à noite: nebuloso e apavorante. Meu corpo congelava com o frio e eu nada podia fazer. A impressão de estar acompanhada havia retornado. Senti que alguém respirava ofegante e sua respiração chocava-se contra o meu pescoço.
_ Por favor, me ajude.- repetiu, parecia desesperado.
_ Deixe-me em paz! – gritei ao vento.
Enfim minha voz havia brotado, ela soou estrangulada, fina e tremida, mas soou e as únicas malditas palavras que eu disse foram “Deixe-me em Paz”! Por que eu não concordei em ajudá-lo? Por que eu me recusei a ajudá-lo? Foi o meu pior erro.
Nuvens carregadas e negras surgiram no céu, trovejou e relampeou. Um raio atingiu uma árvore que se incendiou rapidamente, e nas labaredas se formou o rosto que eu vira no lago. Hipnotizada eu o encarava, entre aflita, assustada, desesperada e nervosa, mas não podia deixar de olhá-lo porque apesar de toda a fúria contida naqueles olhos seu rosto era... Angelical. Foi então que percebi que estava aquecendo, quando olhei ao redor me encontrava em um círculo de chamas. Um denso nevoeiro percorreu toda a área do parque impossibilitando-me de visualizar e ser visualizada. Respirava a fumaça produzida pelo fogo o que me fez tossir compulsivamente e meus olhos lacrimejarem.
Por entre a neblina uma silhueta humana vinha em minha direção, achei que era alguém que iria me tirar dali. Tola ingenuidade. Era apenas Ele em todo o seu feitio, sorrindo diabolicamente. Ele se aproximava devagar, seus olhos vermelhos brilhando intensamente me causando calafrios, mas ainda me encantando. Reparei que estava me movimentando então corri o mais depressa que consegui, a névoa me atrapalhava bastante não sabia mais para onde estava indo. Quando finalmente parei, pensando estar bem longe, Ele apareceu a minha frente, divertido. Eu havia corrido feito uma louca e, no entanto, não saíra do lugar. Sabe como é: uma presa cercada não satisfaz o predador.
As mãos Dele agarraram meu pescoço estrangulando-me. Ele desapareceu. Ajoelhei-me, mal conseguia respirar. Senti que minha garganta queimava, meu reflexo nas águas do lado revelou marcas de dedos que envolviam o pescoço. Então ele me empurrou para o Lago. O gelo que revestia o mesmo rachou-se levemente. Tentei levantar, mas Ele apareceu mais uma vez.
_ Me afogue lentamente querida mamãe. Pode me afogar, eu não me importo. Sou seu filho e entendo a senhora.
Ele repetiu essas frases várias vezes. E sua voz era tão aguda e estridente que me feriu os ouvidos. Eles sangravam. Cortes surgiram em meu rosto, assim como hematomas. Cada poro do meu corpo parecia liberar um fluxo contínuo de sangue. A dor era tão intensa, o medo que eu sentia tão grande me fez desejar que ele acabasse de uma vez com aquela tortura. Mas era só o começo.
_ Eu me afogo em suas lamúrias, eu morro sob as águas do Lago Azul, mamãe. Por que você fez isso a mim? Logo eu que sempre te amei!
Seu rosto estava colado ao meu aqueles olhos fúnebres penetrando minha alma, arrancavam meu coração. Podia jurar que ele realmente o fazia, vingativo, cruel. O gelo abaixo de mim se rachava cada vez mais, podia ouvi-lo estalar e àquela altura sabia que iria morrer.
_ Por quê? O que eu te fiz? – perguntei desesperada.
_ Oh mamãe, agora você vai pagar pelo que me fez. Eu vou me vingar, finalmente eu vou me vingar.
_ Mas eu não sou a sua mãe! – berrei, e foi a última coisa que eu disse.
O gelo enfim se partiu, afundei lentamente nas águas do lago, meu corpo congelando anestesiou a sensação de medo e de dor. Ele agarrou novamente minha garganta, impossibilitando-me de voltar à superfície. Não era preciso, eu havia desistido de lutar. Seus olhos fixos nos meus, estavam rindo, ele estava satisfeito. Fui envolvida pela escuridão, ouvia a morte me chamando, estava tudo acabado.
Agora o reflexo, o Lago e eu passamos a eternidade juntos, unidos pelo mesmo pesadelo, vivenciando os mesmos desesperos e segredos. Somos apenas um e toda noite de inverno a cada vinte anos uma nova alma se une a nós. Até que a maldição seja quebrada. ___________________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________________
Silence
Meus passos são vagos e não me levam a lugar algum. Caminho sozinho a procura do sentido de minha existência. Perdido no vazio profundo e completo desse abismo. Há pedras por onde rumo, coisas que eu gostaria muito de não ter vivido – os arrependimentos que me perseguem.
Essas chamas violetas e brilhantes desenhando a cruz que eu carrego. Guiando-me por entre escombros da alma ferida e ensangüentada que possuo – o passado sombrio que me envenena.
Ficaram perdidos entre a incerteza e a incapacidade de ser o que realmente sou. Um ser repugnante e execrável levo-me a insanidade. Eu não poderia fugir desse suspiro funesto – o grito de dor de uma alma pecadora.
Faça-me acreditar que os sonhos morrem ao amanhecer, que o coração doente e cansado de quem se banhou em pesadelos caiu desgraçado e sofrido na mortal crueldade do seu olhar – que um dia afinal destruirá a humanidade.
Quando meus passos cessarem e a paisagem distorcida que corre ao me redor for apenas uma ilusão, e mesmo se eu me afogar nas lágrimas dementes que derramei que eu não perca a capacidade de me comparar a um verme – o grau mais baixo na cadeia alimentar.
Então assim que a morte chegar, eu recordarei das desilusões que tive, das magoas que agüei, dos dias desbotados que presenciei e que não mais me pertencem. Aquilo que eu realmente nunca divaguei sentir. E que esses momentos não me deixem esquecer as sombras que procurei na solidão, dos rostos amargurados que ficaram para trás – as únicas testemunhas de minha insignificância.


